domingo, 3 de maio de 2026

o encontro dos tradutores de Nietzsche

  


O problema com as estórias antigas, não é somente que elas sejam antigas, mas que elas estão impregnadas de coisas antigas: palavras, rituais, gestos, expressões, lugares, símbolos e inseridas dentro da História;  História que não pode paralisar o indivíduo, impedi-lo de ser criador do próprio destino, mesmo que ele seja inventado, ou: melhor que ele, o destino,  seja inventado. Assim falava Inocêncio.
  Muitas dessas estórias não foram escritas, foram contadas. A falta de tempo, habilidade ou capacidade isso impediram: um registro. Estão como que adormecidas, encantadas e assombram aqueles que as escutaram, assistiram e ainda lembram delas. Melhor seria esquecê-las para uma melhor saúde mental. Mas elas estão ainda aqui.  O Encontro dos tradutores de Nietzsche, realizado nos anos 80 do século passado na sede da UBE no Largo do Arouche, é exemplo disso. 
  O tempo não é uma linha reta  que não tem uma direção á um fim, mas é um ciclo, que se repete. Por isso voltamos aqui, a esse encontro.        Naquele tempo, nem  tão longínquo, traduzir Nietsche era impossível. Hoje a disseminação do uso da Internet, e da IA,  que estão na palma da mão, proximidade promíscua invadindo todas as instâncias , transformam determinados problemas em atividade de fácil solução como,  por exemplo, traduzir Nietzsche.
  Inocêncio Barbosa não sabia uma palavra em alemão, assim eu suponho. 
  O tom peculiar do alemão, o ritmo, a pontuação, os aforismos, naturalmente são um desafio sobre humano , para super homens, mas segundo Inocêncio Terêncio, ele tirou de letra.
  O texto apresentado por Inocêncio  era um dos fragmentos póstumos, inédito até então no Brasil. Esses textos, muitos deles, forame escritos após o colapso mental de Nietzsche. Inocêncio traduziu esse texto na loucura eterna de Inocêncio Nozaki.
  O velho Noca morava então na Rocha - um mundo á parte na Bela Vista. Talvez o número reduzido de cortiços contrastando com a existência de quase uma dezena de pequenos prédios, bonitos prédios com suas pastilhas! A rua Rocha, pequena rua reta, com seus bonitos predinhos - Dina, Mario de Andrade - de poucos andares e aqueles sobrados, grandes sobrados e aqueles bares simpáticos, onde Noquinha reinava, entre outros reizinhos - Serginho, Claudinho, Aldo Bueno. Inocêncio era um desses descolados moradores da Rua Rocha, Dizia já ter feito de um tudo na vida: morado em Israel, em Cote d' Ivoire, ter formado na Legião Estrangeira, jogado no Deportivo La Coruna e mais. Aquele que tivesse a paciência de anotar todos os seus relatos, notaria que ele teria de viver, ou teria vivido, sete vidas ou duzentos anos. Entre várias peripécias  que ele afirmava ter vivido, além do encontro ainda a ser descrito, ele teria sido dono de uma fábrica de produtos religiosos, sendo um de seus cliente Golbery do Couto e Silva, com quem ele fazia despachos  realizados na bacia de São Vicente; teria sido criado com o filho do governador Lucas Nogueira Garcez, dormido na mesma cama com o rebento e dividido com ele mingau na mesma tigela.
  Dizia ser filho de alemã, apesar de quase crioulo, e neto de grego.     Seria descendente de um Abravanel, tendo na árvore genealógica Noé e Matusalém e daí até Adão , cujo pai era desconhecido. 
 Naquele época já estava com o pé inchado, sinal óbvio de morte á caminho.
  Nonô frequentava o bar do Lalá, e lá éramos atendidos por Lucinha uma doce criatura. 
  A tradução, ou o encontro dos tradutores,  que é afinal do que trata  essa estória , como já citado em linhas anteriores, ocorreu na UBE, também já citado, e que teve sua importância, mínima ou grandiosa, depende de quem ler, e está inscrita naquela ordem dos clubinhos, patotas, sindicatos, associações , e mesmo maçonaria, com seus pequenos rituais -  O digníssimo irmão abre a jornada de hoje, pela ordem do dia, para apresentar aos nossos convivas, emitindo loas e exaltando o prazer de receber a visita do eminente intelectual, tradutor do outrora obscuro texto , e agora exposto ás luzes, apresentamos o texto de Inocêncio Seráfico. 
 Ignoro se exista algum registro desse encontro; digo porém Nietzsche é um autor surpreendentemente  muito traduzido no Brasil; ele tem livros que são vendidos em banca de jornal, impressos em papel vagabundo, ou em offset , o que acaba para mim o prazer da leitura. 
  O rigor passou longe na versão de Inocêncio. Acho que tive acesso aos originais, mas talvez tenha esquecido essa parte. Eram uma mistureba de recorte e citações, expressões e ditos populares, de cantiga de roda alemãs, de detalhes picantes da vida de Lou Salomé, saídas da mente prodigiosa de Inocêncio Malatesta, Saavedra, Magnavita ou Andrade, dependendo o nome do Drury's ou do Passport,  e na falta deles, Wall Street. 
  Eram confissões que podiam ser de qualquer um.
  Os eventos que permitiram a participação de Inocêncio de Paula no encontro são absolutamente secretos. Suas estórias surgiam do nada; ou ás vezes uma palavra, uma frase, um nome - Schwanke - despertavam sua verve.  
  - Schwanke, sim conheci. Ele invocou comigo num baile no Paulistano da Glória e disse que ia me esfaquear. O Zebu, delegado classe especial, estava no baile e me disse para ficar tranquilo, não haveria problemas, isso ele me garantiu.
  Alguém num noite falou em Nietzsche, ele disse que conhecia, o chamou de poeta. Um aluno da PUC presente no boteco o  desafiou a fazer qualquer citação, e ele emendou: " O maior peso: - E se algum dia ou noite um demônio se aproximasse de você em sua solidão mais solitária e lhe dissesse: “Esta vida como você a vive agora e a viveu, você terá que viver mais uma vez e inúmeras vezes mais; e não haverá nada de novo nisso, mas cada dor e cada alegria e cada pensamento e suspiro e tudo o que for indescritivelmente pequeno ou grande em sua vida terão que retornar para você, tudo na mesma sucessão e sequência – até mesmo isso. aranha e isso o luar entre as árvores, e mesmo neste momento e eu mesmo, a eterna ampulheta da existência é virada de cabeça para baixo repetidas vezes, e você com ela, grão de poeira!

Você não se jogaria no chão, rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que falou assim? Ou você já experimentou um momento tremendo em que lhe teria respondido: “Você é um deus e nunca ouvi mais nada  divino." Se esse pensamento tomasse posse de você, ele mudaria você como você é ou talvez o esmagaria. A pergunta em cada coisa: “Você deseja isso mais uma vez e inúmeras vezes mais?” recairia sobre suas ações como o maior peso. Ou quão bem disposto você teria que ser consigo mesmo e com a vida para desejar nada mais fervorosamente do que esta confirmação e selo eternos e definitivos?" Se você aceita o destino de que tudo acontecerá exatamente da mesma maneira sempre e vive confortável com isso, isso pode ser considerado um absurdo?

   Após esse estouro o levei carregado para seu refugio no Cunha Bueno. Seu dormitório ornado com quadros de Ismael Nery, gravuras de Segall e uma escultura de sua cabeça feita por De Fiori, estava incrivelmente limpo. Seu catre rescendia á lavanda e o aguardava uma bela morena. Exigiu que eu o pusesse em decúbito, mas rogou que lhe tirasse os borzeguins. Já ia me retirando, quando ele imperioso, me disse;
  - Duvida de minha participação no encontro? Pegue aquela pasta de couro próxima ao colar de Maria Madalena. Retire a folha com bordas douradas.  O que está escrito nela?
  Como é maravilhoso contar mentiras

terça-feira, 28 de abril de 2026

respiração




Acredita-se que isso tenha acontecido pelo menos uma vez; em tempos remotos, talvez. Fala-se em uma idade do ouro, ou qualquer coisa assim. Tempo de magia, paz e amor. Uma pesquisa qualquer com esses bloco-pensamento nos leva a alguns lugares: tribo nômade, hippies, estados alterados de consciência, mente não-dual, wu hsin, Guimarães Rosa e o Grande Sertão, trip hop, Star Trek, Hindi Zahra, Galáxias de Haroldo de Campos, Revolver de Walter Franco. Você encontra aqui e ali pequenos indícios, pegadas, mensagens cifradas que remetem a estes acontecimentos. A esse lugar, fantasias evidentemente. Não se trata de nada especial, nenhum lugar, nada a ser destacado, estandarte, qualquer coisa assim; nem outra direção, algo a ser escondido, tesouro, medalha. Simples como o fogo. Acredita-se e eu acredito também em mitologia, resolução de problemas em estados alterados de consciência, em sonhos. Utopia.

sábado, 25 de abril de 2026

o livro



parece que tudo que faço
é enfileirar livros
essa espera
deles e minha
todos eles, em todos os cantos
não somente sobre a escrivaninha
(isto não me desanima)
estão por aí
nessa espera, nossa espera (o livro me engravida)
e nele me acho
e acho que me perco
cada vez mais um atrapalho
( o cheiro deles, melhor que o cheiro delas?)
Helás, o inferno dos livros
meu desatino, meu descabaço
o  livro que rompe 
irrompe meu cérebro em pedaços
pedaços
saíram a rever estrelas
quando partires em viagem á Ítaca 
ser ou não ser
o livro que está dentro de mim
na minha periferia, minha quebrada, bela vista
páginas inteira de finismundo que nunca li, 
galáxias que está aqui
o grande sertão, logo ali
conversas de gravador
nessas repetições
o sólido que se desmancha 
o hamlet, de novo, que quer comer todo o povo
aliás eu recomeço, sem medida
uma colher de chá, 
folhas soltas, embaralhadas
o grande livro que é o tarot
tal e qual a torah
tudo inacabado, para ser mais uma vez interpretado
como da primeira vez
o beijo roubado
fechar o livro e começar a vida
o acaso
se não outro livro
livre de mim por alguns frames
o livro
desenterrá-lo de dentro de mim
pequeno livro, desinteressante
meu livro sem fim


domingo, 8 de março de 2026

estações




aqui não tem mais verão
aquela chuva danada
esse outono que não chega
as folhas paradas
inverno de camiseta
tudo fora do esquema
primavera banguela
nunca mais aquela
tempo e rima frágil
bagunça no dial




sábado, 21 de fevereiro de 2026

o gato



o gato se aproxima
pula no meu colo, faz miau
e nunca mais disse tchau

o nome



eu sei o nome dos bichos
das plantas, dos pássaros,
das ruas , das gentes
não sei o nome que vai no meu coração