O problema com as estórias antigas, não é somente que elas sejam antigas, mas que elas estão impregnadas de coisas antigas: palavras, rituais, gestos, expressões, lugares, símbolos e inseridas dentro da História; História que não pode paralisar o indivíduo, impedi-lo de ser criador do próprio destino, mesmo que ele seja inventado, ou melhor, aqui para nós, que ele, o destino, seja inventado. Assim falava Inocêncio.
Muitas dessas estórias, todas aliás, não foram escritas, foram contadas. A falta de tempo, habilidade ou capacidade isso impediram: um registro. Estão como que adormecidas, encantadas e assombram aqueles que as escutaram, assistiram e ainda lembram delas. E a elas retornam, como uma maldição. Melhor seria esquecê-las para uma melhor saúde mental. Mas elas estão ainda aqui. e sempre voltam. O Encontro dos tradutores de Nietzsche, realizado nos anos 80 do século passado na sede da UBE no Largo do Arouche, todo folclore que o cerca, e sua personagem principal, é exemplo disso.
O tempo não é uma linha reta que tem uma direção á um fim, mas é um ciclo, que se repete. Uma vez mais, e sempre assim , indefinidamente. Por isso voltamos aqui, a esse encontro. E a outros, alguns a que nem fomos convidados.
Naquele tempo, nem tão longínquo, traduzir Nietsche era impossível. Coisa de maluco, ou de doutores. Hoje a disseminação do uso da Internet, e da IA, que estão na palma da mão, proximidade promíscua invadindo todas as instâncias , transformam determinados problemas em atividade de fácil solução como, por exemplo, traduzir Nietzsche.
Inocêncio Barbosa não sabia uma palavra em alemão, assim eu suponho. Em sua casa encontrei após seu passamento uma coleção de pequenos dicionários , entre eles aquele amarelinho, o Langenscheidt, provavelmente usado nessa tradução.
O tom peculiar do alemão, e em particular do filósofo do martelo, o ritmo, a pontuação, os aforismos, naturalmente são um desafio sobre humano , para super homens, mas segundo Inocêncio Terêncio, ele tirou de letra.
O texto apresentado por Inocêncio era um dos fragmentos póstumos, inédito até então no Brasil. Esses textos, muitos deles, foram escritos após o colapso mental de Nietzsche. Inocêncio traduziu esse texto na loucura eterna de Inocêncio Nozaki.
O velho Noca morava então na Rocha - um mundo á parte na Bela Vista. Talvez o número reduzido de cortiços contrastando com a existência de quase uma dezena de pequenos prédios, bonitos prédios com suas pastilhas! A rua Rocha, pequena rua reta, com seus bonitos predinhos - Dina, Mario de Andrade - de poucos andares e aqueles sobrados, grandes sobrados e aqueles bares simpáticos, onde Noquinha reinava, entre outros reizinhos - Serginho, Claudinho, Aldo Bueno. Inocêncio era um desses descolados moradores da Rua Rocha, essa rua diferente da Bela Vista, inclusive mais branca, ou menos preta, dizia-se negra então, se é que é possível não ser preto na Bela Vista.
Dizia já ter feito de um tudo na vida: morado em Israel, em Cote d' Ivoire, ter formado na Legião Estrangeira, jogado no Deportivo La Corunha e mais. Aquele que tivesse a paciência de anotar todos os seus relatos, notaria que ele teria de viver, ou teria vivido, sete vidas ou duzentos anos. Entre várias peripécias que ele afirmava ter vivido, além do encontro ainda a ser descrito, ele teria sido dono de uma fábrica de produtos religiosos, sendo um de seus clientes Golbery do Couto e Silva, com quem fazia despachos realizados na baia de São Vicente; teria sido criado com o filho do governador Lucas Nogueira Garcez, dormido na mesma cama com o rebento e dividido com ele mingau na mesma tigela. Teria nadado com João Havelange no Tietê, antes do ex-presidente da FIFA ter contraído o tifo negro naquele rio já citado.
Dizia ser filho de alemã, apesar de quase crioulo, e neto de grego. Seria descendente de um Abravanel, tendo na árvore genealógica Noé e Matusalém e daí até Adão , cujo pai era desconhecido.
Naquele época já estava com o pé inchado, sinal óbvio de morte á caminho.
Nonô frequentava o bar do Lalá, e lá éramos atendidos por Lucinha uma doce criatura.
A tradução, ou o encontro dos tradutores, que é afinal do que trata essa estória , como já citado em linhas anteriores, ocorreu na UBE, também já citada, e que teve sua importância, mínima ou grandiosa, depende de quem ler, e está inscrita naquela ordem dos clubinhos, patotas, sindicatos, associações , e mesmo maçonaria, com seus pequenos rituais - O digníssimo irmão abre a jornada de hoje, pela ordem do dia, para apresentar aos nossos convivas, emitindo loas e exaltando o prazer de receber a visita do eminente intelectual, tradutor do outrora obscuro texto , e agora exposto ás luzes, apresentamos o texto de Inocêncio Seráfico.
Ignoro que exista algum registro desse encontro; digo porém: Nietzsche é um autor surpreendentemente muito traduzido no Brasil; ele tem livros que são vendidos em banca de jornal, impressos mesmo em papel vagabundo, ou em offset , o que acaba para mim o prazer da leitura. As péssimas traduções são outro empecilho para a melhor fruição dos textos, que são poéticos até para reafirmar o que ele próprio pensava, que a "fonte original" manifestava-se na arte e na poesia.
O rigor passou longe na versão de Inocêncio. Acho que tive acesso aos originais, mas talvez tenha esquecido essa parte. Eram uma mistureba de recortes e citações, expressões e ditos populares, folhas de jornal de outras traduções, casos ouvidos ao acaso em ônibus ou elevadores, lembranças de cantiga de roda alemãs, pedaços de documentários com detalhes picantes da vida de Lou Salomé, uma amálgama confusa saída da mente prodigiosa de Inocêncio Malatesta, Saavedra, Magnavita ou Andrade, dependendo o nome da quantidade de Drury's ou do Passport, e na falta deles, Wall Street, e da plateia para quem ele discursava, e ás vezes cantava sambas acompanhando-se de uma caixa de fósforos.
O texto era uma confissão que podia ser de qualquer um.
Os eventos que permitiram a participação de Inocêncio de Paula no encontro são absolutamente secretos.
Suas estórias surgiam do nada; ou ás vezes uma palavra, uma frase, um nome - Schwanke - despertavam sua verve.
- Schwanke, sim conheci. Ele invocou comigo num baile no Paulistano da Glória e disse que ia me esfaquear. O Zebu, delegado classe especial, estava no baile e me disse para ficar tranquilo, não haveria problemas, isso ele me garantiu.
Alguém num noite falou em Nietzsche, ele disse que conhecia, o chamou de poeta. Um aluno da PUC presente no boteco o desafiou a fazer qualquer citação, e ele emendou:
" E se algum dia ou noite um demônio se aproximasse de você em sua solidão mais solitária e lhe dissesse: Esta vida como você a vive agora e a viveu, você terá que viver mais uma vez e inúmeras vezes mais; e não haverá nada de novo nisso, mas cada dor e cada alegria e cada pensamento e suspiro e tudo o que for indescritivelmente pequeno ou grande em sua vida terão que retornar para você, tudo na mesma sucessão e sequência – até mesmo isso. A mesma aranha e o mesmo o luar entre as árvores, e mesmo este momento e eu mesmo falando sobre isso, a eterna ampulheta da existência é virada de cabeça para baixo repetidas vezes, e você com ela, grão de poeira!"
Após esse estouro, meio que desmaiou, e o levei carregado para seu refugio no Cunha Bueno. Seu dormitório ornado com quadros de Ismael Nery, gravuras de Segall e uma escultura de sua cabeça feita por De Fiori, estava incrivelmente limpo. Seu catre rescendia á lavanda e o aguardava uma bela morena. Exigiu que eu o pusesse em decúbito, mas rogou que lhe tirasse os borzeguins. Já ia me retirando, quando ele imperioso, me disse;
- Duvida de minha participação no encontro? Pegue aquela pasta de couro próxima ao colar de Maria Madalena. Retire a folha com bordas douradas. O que está escrito nela?
"Como é maravilhoso contar mentiras."
