sou devoto de são Benedito. Leio uma história da vida de são Benedito, escrita pelo poeta Luis Avelima e choro. acho que chorar lendo um texto é algo muito Miele. Quando criança eu brincava com meu irmão no clube Espéria; andávamos por aqueles espaços, para nós imensos, explorando lugares, e tudo nos levava a crer em, inclusive, outros lugares. Nossa brincadeira era interpretar nossos antepassados: ele era o Miele e eu o Benedito Loureiro. entendo quase nada da vida, da razão e da Fé. Entendo que eu choro ao ouvir o Barry White, pedindo licença para música passar, e dizendo: a miséria acabou. Um forte abraço ao meu primeiro primo Betinho; ao Micali em cuja casa eu ia ouvir em 1979 o Barry White, ao Walter e ao povo do Peruche, sem dúvida a escola mais roubada na história do samba; a minha prima Chiara superMiele, ao meu amigo de sempre Paulo de Tarso, um homem de extrema capacidade, um garoto muito esperto que vai ajudar sempre muita e muita gente com seu trabalho, um irmão com quem comungo a maior crença em nossa igreja; igreja de caridade, humildade e hierarquia; e a meu irmão Marcio que todos querem que seja Miele, Loureiro, Bueno e Marcinho, mas é simplesmente Marcio.
Ela envelheceu antes dele, mas vai sobreviver a ele. Sobreviver, aqui, significa viver mais que ele; eles se amam muito, estão vivendo muito. Isso aqui é: ele vai morrer antes dela. Sobem a 13 de maio de mãos dadas; antes não. Antes aqui entendido como um tempo anterior, não antes da 13 de maio, na santo antônio, que foi de onde vieram, antes, aqui, o tempo de namorados; no tempo de namorados não andavam de mãos dadas. Talvez o carro. Talvez o mal jeito dele, difícil de se entender, de falar e de demonstrar amor. Ela sempre muito dependente dele, ele decidindo tudo, trabalhando muito, mas não andavam de mão dadas. Sobem a 13 de maio, de mãos dadas; vão à academia. Casal fitness. Os dois tem mais de sessenta, ele quase setenta; como se diz por aí: não aparentam! Ela sofre; dores difusas e variadas,não gosta de ginástica. Não gosta do ambiente, não gosta de exercícios físicos, de espelho e etc. . Ele cada dia mais empenhado, finge que não tem dores difusas e variadas, e, principalmente, esconde a dor do peito. Entrega-se, ele, à uma rotina de exercícios puxados; uma série vigorosa de dar inveja à garotões de trinta. Dezenas de repetições. Com renovadas forças vai todo dia à academia. Ela, dia-sim, dia-não. Preferia não ir, mas ele pede, exige. Ela deu uma bela envelhecida; Botox e plástica antes de melhorarem o visual acentuaram a passagem do tempo. Esticada e inchada, a pele, sem viço e realmente plastificada, diz que ela é velha. O braço é gordo. Estrias. Celulite que não é derrotada. Preguiça de ir à academia: lá tem gritaria. E também festa e bagunça; parece igreja de crente. Católica, gostaria de ir à igreja todo dia, envolver-se e dedicar-se mais; vai dia-sim, dia-não. Ele deixou o escritório para o filho mais velho. Quando solicitado, dá um parecer: categórico, firme. Aposentado, como que renasceu; mais carinhoso,mais falante, mais passeios com a mulher. De mãos dadas. Ela entende agora o jeito dele; o porquê da antiga distância, as poucas palavras. Entende também a antiga dependência, esperar o que ele dia decidir, que rumo iam tomar; agora andam juntos, de mão dadas. A dor que tem no peito credita aos muitos quilos que levanta muitas vezes. Pensa, ingenuamente, que talvez seja o amor que cada vez mais sente por ela. Ela pensa: nunca estivemos tão próximos e felizes. Sem tantas responsabilidades vivem mais um para o outro, são mais próximos e entendem-se cada vez mais. De mãos dadas sobem a 13 de maio; de mãos dadas cada vez mais apertadas. Ela envelheceu antes dele, mas vai sobreviver, eles sabem.