terça-feira, 6 de março de 2018



Pré primário, Ângelo Martino, Rua Humaitá, Bela Vista.1971.
Chegou o dia de conhecer os instrumentos musicais, a bandinha. A professora de música me entrega uma flauta transversal. Passa-se cinco minutos ela troca de instrumento e me dá um reco-reco. 
As aparências enganam.

os himens foram costurados
mas a inocência, ah a inocência
para sempre está perdida

há dois anos um cabeleireiro do bairro disse que eu parecia carioca.
há um mês meu novo cabeleireiro perguntou em qual cidade da bahia eu tinha nascido.
gente,eu não presto.

vem e me diz que teve o intestino perfurado, e que a irmã foi presa com duzentos papelotes de cocaína, e que a perna está tomada pelo câncer, e que foi ameaçada com uma faca pelo filho, e que está desempregado e vai voltar pra bahia, e que com o iphone os cinegrafistas vão ficar desempregados, e eu não sinto nada...
aí leio esse poema, Manuel Rivas: Conecin... e choro
deve ser porque tenho que chorar escondido

como a neve na primavera
tudo que toca
evapora

segura o bimbo bruxelas

canvas



não existe a cura
os meninos vão continuar a chorar
20 anos canvas & ar nas artérias
tão longe de vocês, quanto é possível estar
a vida é isso aí: gente sem dizer a que veio
querendo ficar
lembrando de você dentro de mim
e ok, vive e versa,
nós sempre a passeio, a passeio
cabelos ao vento, 
os joelhos rasgados sem piedade
o mar, uma coisinha pequena pra carregar.
na fotografia todo mundo sorrindo
e eu não apareço
ainda tateio o fogo
só pra se ligar nessa parada
de não saber onde se está