A segunda vez que li Crime e Castigo, faltei no trampo e na facul pra acabar de ler o livro, bein... qualquer motivo é motivo pra não trampar, mas esse é um verdadeiro motivo.
A primeira vez li no Centro Cultural. Uma edição caprichada em dois volumes, capa dura, tradução de Rosário Fusco, ilustrações que me davam medo.
mil tardes no Centro Cultural
aflição silêncio e agitos
lendo esperava outros dias
A febre do Raskolnikov, a Lu pegou tambem,quando leu o livro. Sensibilidade demais ás vezes põe a gente doente.
O livro é extraordinário. Justificativas que não justificam nada, um crime. Calafrios, dores intensas na alma, culpa, o castigo.
Livro pra mim é tudo. Cheiro de livro novo é o cheiro, melhor do que flor. Esse livro para mim é tudo.É que lendo a gente vai pra outro lugar, não é somente ver o que está escrito, fazer um filme na cabeça, é muito mais que isso. Ler é a maior viagem.
É claro que eu amo a adaptação com o James Mason e a Geraldine Chaplin, filme que assisti na infância e não acho, mas vou procurar e achar. Aliás eu vou procurar e achar muitas coisas. E mais: eu acho muitas coisas, e achar alguma coisa é uma felicidade. Os cretinos não acham nada, pensam que sabem. Eu acho que eles pensam que sabem. Uma acha, salvo engano é quase uma fogueira, uma salva de palmas para tu que achas,achou, Abraxas, e abraças esse canto.
O episódio do enterro de Marmeladov; quando Ekaterina Ivanovna dança com lenço para o governador;a perda da virgindade de Sonetcheca, eu não esqueço.
No Centro Cultural li os russos, o Capote de Gógol , e uma seleta de contos e aí cheguei no Dostoievski, e li quase todos. O jogador, Noites brancas,O filósofo. Depois li o Haroldo de Campos dizendo que esses títulos eram nomes de músicas do Jorge Ben. Se fosse sem querer era ainda mais impressionante, disse o Campos.
viram os Campos
irmãos
de tantas fontes e folhas férteis
os irmãos Campos
virão.
Caetano Veloso votou em mim na Fábrica do Som e eu ganhei um prêmio por um poema sobre os irmãos Campos. Acho que era ainda pior que esse que escrevi agora, acontece que eu era o mais bonito e o Caetano votou em mim,no cabeludinho.
O Kamarazov eu não li. Assisti a novela com o Boldrin, o Julgamento, na minha tv Tupi. A abertura era o MPB 4 cantando Gonzaguinha: "casa de ferreiro espeto de pau, quem não engole espinho nunca vai se dar mal" Gonzaguinha o favorito da LU.
O Leminski fez um biografia do Trotski para lá de confusa, citando o conflito dos Karamazov, como algo que vai mais fundo para compreender a Rússia. "Quando um dos Karamazov mata o pai aí começa a Revolução Russa" vou ler mais uma vez o Trotski do Leminski para acabar, ou não, com essa confusão.
Hoje leio que o Brasil tornar-se-á a sexta maior economia, que depois a India irá passá-lo, mas que com a Copa e a Olimpíada, voltaremos, nós?, ao sexto lugar.
Brasil, Russia, India, o BRI dos BRIC'S. A China era como eu chamava minha mãe, um mundo era a dona Consuelo.
Mas a Russia...
A velha Russia, a velha russa sorrindo banguela, a velha Russia sobrevivendo ,a contragosto da nova Russia com os dentes parafinados a laser. O dinheiro ganho para parafinar os dentes no suor arrancado das sex slaves, minas de ouro, poços de petróleo que o rufianato mafioso da nova Russia soube explorar.
Quem é o novo Dostoievski? O que mudou na nova Rússia?
Uma coisa me leva a outra coisa, um livro leva a outro livro. Ah eu acho que achei alguma coisa aqui.