sábado, 12 de novembro de 2011

Introdução: Bueno, outras estórias

Gosto de pensar que temos somente algumas perguntas fundamentais, pedras-angulares de nossa angústia profunda, para responder:


-De onde eu vim?

-Para onde eu vou?

-O quê é que eu estou fazendo aqui?

Se a Genealogia, estudo do parentesco, obviamente não reúne as condições necessárias para responder- não da forma profunda que a primeira das perguntas fundamentais está colocada - ela responde á objetivos menos importantes.

Fiz através da Genealogia, um passeio ao passado.Querendo saber o nome do avô do meu avô, consultei o Google, o novo oráculo, e cheguei a um lugar, que eu não esperava chegar.

Voltei ás praias virgens, ás “índias passivas e ofertantes, que andavam nuas e não sabiam se negar a ninguém"; a certo Antônio Rodrigues “que ninguém sabe como veio parar aqui”; a uma briga de caciques irmãos, um atacando o Colégio, o outro defendendo-o,fragmentos de história, e isso me deu uma coceira, uma vontade de escrever uma estória.

Mas eu quis escrever a estória, antes da história dos Bueno, ou depois?

Ah, sim, de novo: O que eu queria saber ? O nome do avô do meu avô; pois que ele se chamava Antonio Bueno da Silveira.

O caminho das pedras da pesquisa foi um: Anna Salles Bueno. A vovó Buena, avó da minha bisavó Maricota. O nome de um antepassado mais distante que eu conhecia.

Contava-se uma lenda na família, a minha família descendente da Vovó Maricota, que descendíamos de Bartira e João Ramalho. Fui pesquisar e cheguei a resultado diverso, mas não muito distante.Nós somos descendentes não do Tibiriça, pai da Bartira, mas do irmão dele o Piquerobi, cunhado do Antônio Rodrigues, um daqueles que "nínguem sabe como veio parar aqui".

Ao fazer a pesquisa eu quis, como na música de Gilberto Gil, saber o nome do avô do pai do pai do avô do meu avô. É uma história, (estória?) complicada mesmo.

Todo aquele que se aventurou a ler a Genealogia Paulistana de Paes Leme, que é a Bíblia, o livro a ser consultado sobre as famílias de São Paulo sabe do que estou tratando: números, capítulos, parágrafos, vai e volta; de Bueno para Camargo, daí a Carvoeiros, e agora Pires e de novo Bueno. Perder o fio da meada, ali, é muito fácil.

Como em qualquer família, muitos se perderam no caminho... E a mim não restam dúvidas que a história de uma família é muito mais rica em estórias do que qualquer outra coisa. De filhos que não estão ali, ou de outros, que não filhos ,estão ali.As estórias não estão no Paes Leme.

A estória é mais que a história. A estória, um arcaísmo, como a genealogia. A estória, em oposição à história, oposição ao oficial, ao registro do bacharel. A estória, arcaísmo, uma caixa de pandora carregando outro saber.A estória quer mais que a história, como o mito explica tudo. Explicam tudo a fábula e o folclore também.

Através da Anna Salles Bueno cheguei ao nome do marido dela: Antonio Bueno Silveira Camargo.Uma vez conhecendo-se o nome do avô do meu avô, restou-me continuar esse caminho, e se obviamente não me interesso por chegar até Adão, já que sei que sou filho de Xangô,( e essa resposta  estava na música do Gilberto Gil) descobri que o pai do avô do meu avô era Pedro Bueno de Camargo.

Esse senhor Pedro Bueno de Camargo era bisneto de outro Pedro Bueno de Camargo, neto do bandeirante Bartholomeu Bueno Cacunda, irmão de Amador Bueno, aquele que foi aclamado rei de São Paulo.

Bartholomeu e Amador eram filhos do Sevilhano, Bartholomeu Bueno da Ribeira.

Bartholomeu Bueno da Ribeira casou-se com uma das filhas do cacique Piquerobi, irmão de Tibiriçá.

Nenhum motivo de orgulho. Milhões de outros brasileiros descendem de algum dos pioneiros que habitavam a São Paulo de Piratininga do século XVI. A estimativa é do professor emérito da UFRJ e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, Francisco Antonio Doria. Os descendentes desse primeiro Bueno chegam aos milhões. Se tivéssemos cerca de 3 filhos sobreviventes por casal elevado a 15, que é o número de gerações nascidas no Brasil, o resultado chega à casa dos 15 milhões de pessoas.

Descender da brava gente bandeirante que “reuniu grande escravatura indígena” que foi “grande sertanista caçador de índios” não me dá motivo de orgulho, antes penso no Karma.

Importante é a memória, é a imaginação. Chegar em outro lugar que não se imaginava na saída.

Aquele objetivo menos importante, o de achar o nome do avô do meu avô, e do avô daquele, e do avô deste, foi alcançado, e a árvore genealógica está montada numa das páginas a seguir.

A coceira de escrever uma estória fez com que eu escrevesse esse livro. Ele está dividido em três partes.

A primeira  parte é a da história, da árvore genealógica, dos fragmentos de história desses personagens que tem história: Piquerobi; Antonio Rodrigues; Maria Pires, a Messiaçu; Bartholomeu Bueno Cacunda; Pedro Bueno Camargo.

Um capítulo necessário é o Caminho das pedras; nele mostro como fiz a pesquisa e como cheguei á Piquerobi.

A segunda parte escrevo as estórias da minha família: Vovó Maricota; o Tio; os sobrinhos do tio; as festas na Vila Itororó.

Eu me lembro de muitas estórias: a Vovó Maricota despediu-se de todos antes de morrer, deixou de almoçar á mesa do Miele após uma discussão; o Tio quando estava de pileque chamava todos de Oh! Pedrinho. Os primos voltando dos bailes de madrugada numa outra São Paulo; das festas da Vila Itororó que duravam uma semana, do Natal ao Ano Novo.

Minha família, minha gente está acabando.Não tem mais quase nínguem que lembre, mas tem muita gente de quem lembrar. A memória não pode se perder; quem não está na história precisa ter sua estória registrada.

Se escrever as estórias da família não foi fácil, fazer a árvore genealógica não foi tarefa simples. Esse Paes Leme não é fácil de ler (capítulos, parágrafos, números, de Bueno a Pires, etc., etc.) e esse senhor Pedro Bueno não é fácil de seguir. “Pedro Bueno não gostou da nomeação de Domingos Correa da Silva como capitão das minas, ficou desanimado e retirou-se para as cachoeiras do Rio Doce.” O que teria acontecido a ele após isso? Oh! Pedrinho não desanime não se esconda de mim.

Eu perdi o Pedro Bueno de Camargo, duas três, vezes. Cadê ele? Ele ficou lá na página 418, sozinho, sem mais nenhuma referência, como 2-3. Reapareceu na página 154 do volume 2 como 5-3, novamente sem mais referências. Será o mesmo Pedro Bueno de Camargo que reaparece com 4-6 na página 187 como o pai do avô do avô do meu avô Antonio Bueno da Silveira?

Nem tudo está registrado no Paes Leme. Falta eu ter a certeza que o Pedro 2-3 é o pai do Pedro 3-2, que vem a ser o avô Antônio Bueno da Silveira, que é avô do meu avô Tonico, também chamado Bueninho, ou oh! Pedrinho, ou simplesmente o Tio.

Esse furo eu não consegui, ainda, resolver. Onde foi parar Pedro Bueno de Camargo? O que ele fez quando retirou-se para as cachoeiras do rio Doce?

Aqui começa a terceira parte do livro. Os fragmentos de história que chegaram dão margem a muita estória.

A estória de Antônio Rodrigues, o companheiro de João Ramalho, como ele veio parar aqui?

Por quê Piquerobi atacou o colégio, defendido pelo irmão Tibiriça?

Por quê Bartholomeu Bueno, virou o Cacunda?

Como foi a viagem do Sevilhano com os filhos?

Onde acaba a história, começa a estória. Para preencher os furos eu pensei em criar, inventar uma história. A estória dos sete Bueno, antes do avô do meu avô.

Eu pensei : O quê une essas pessoas?

Sete estórias, sete pecados capitais.

Ou algo biblíco? A estória do Francisco Ramires, pode ser o Genesis. Um episódio do Exôdo o Bartolomeu Cacunda. O livro de Jó, Daniel na cova dos leões, O livro de Ruth, e assim por diante.

Que estória eu vou contar? É toda essa história, são essas estórias que nesse livro eu vou contar.

escorpião destino

essa escolha esquerda
infamiliar intestina
incendeia
cabeça coração e membros
ser do contra
estar do outro lado
estrangeiro de si
é um tiro a esmo
bala perdida
que atinge a mim

quinta-feira, 10 de novembro de 2011






Nunca uma prenda

mais pra samurai

do que pra gueixa

essa mulher

nunca me deixa

se eu escutasse

Se eu escutasse as minhas preces
eu aprenderia mandarim
abriria a caixa do violão
E dali sairia as canções
que estão esperando por mim


Falaria somente de cãezinhos
do cheiro doce do jasmim
da primavera que é a mais bela
e mentiria que esqueci definitivamente
de tudo que é ruim


Faria mais daquilo que eu digo
e deixaria de olhar tanto
pro meu umbigo


Arrebentaria numa porrada
a campainha da lojinha
que cigarra intermitente
a cada vez que entra alguém
- acho que isso é coisa de japonês -
no sonho da menina
que eu nunca vi


Terminaria tudo mais facilmente
escovaria os dentes rapidamente
juntaria prosa e poesia
faria da vida menos choro
e mais semente

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A PRIORI E A POSTERIORI

Sou anti-sistema.Qualquer assobio contra autoridade eu apóio. E outra nem sou a favor da ocupação, eu não sou contra o que já é uma posição.


Tudo me cansa, ficar do lado errado me cansa, eu reflito também como espelho partido, imperfeitamente estranho a tudo.


Se fosse a favor da "libertação" da maconha eu acharia ótimo.


Cada um que fume o que quiser e segure sua onda, e guarde suas pontas.


A Invasão da reitoria da USP é mais.


Se fosse além, contra a truculência policial, resquício evidente da ditadura - para muitos tão distante, para mim vizinha - eu acharia ótimo.


Pela reforma da polícia, pela desmilitarização dela. Pelo fim do assassinato de jovens , negros, favelados e maconheiros.O estado é policial e detem o monopólio da violência, abaixo esse monopólio,e qualquer outro monopólio.Pelo fim da violência, do arame farpado, das divisas do generais, pela destruição de todas as armas quimícas, bélicas, de destruição. Pelo fim de todo exército e de todas as armas.


Pelo imediato investimento em piscinas públicas, parques e praças onde todos possam ficar doidões em paz.Pela abertura da USP á população, por cursos livres, acesso á todos. A USP tem que ser de todo mundo.


Se fosse pela Segurança da USP, por outra forma de segurança eu acharia ótima.Os roubos e estupros e toda forma de violência não diminuiram com a presença da PM, uma nova segurança é necessária.


A ocupação da reitoria da USP é uma forma de protesto.


Eles não são garotos mimados. Embora não tenha contato e não saiba quem são, imagino que sejam de partidos de esquerda revolucionária, que por tática e estratégia tem obrigação de jogar bomba na autoridade, que por definição é ridícula e patética.


A USP está em processo de transformação em Universidade Shoopping. Por uma universidade que pense uma nova civilização, a nossa não deu.Um professor escreveu que só restava pro pobre no Brasil ser bandido ou crente, quem é que discorda?


Estão mascarados, acho legal, acho legal mostrar a cara tambem.


No último momento não estouraram as bombas, não morreram como herois. O Nome do filme é 400 x 73. O filme do professor,citado 5 linhas acima, do comando vermelho é 400 contra um. A nossa civilização conciliadora, nosso jeito cordial, evitou o derramento de sangue, até quando?Até quando vamos crer? a Esperança e o Otimismo, fincaram aqui profundas raízes.


Eu estou mais uma vez errado, escolho o lado errado. Quero que meu romantismo vá a merda, mas é uma dificuldade ir contra minha natureza.


Qualquer pessoa que se 'informa" por veja, folha, grobo, waack, dimenstein e outros agentes da cia, do emburrecimento e das leis do shopping e do mercado e do departamento comercial e etc não sabe de nada que acontece.


E grafitem e quebrem e detonem e façam um barro na cadeira do reitor.


Viva a juventude, eu vivi a minha.do que jeito que eu pude, inclusive gostaria de ter vivido a minha juventude na USP , vivi na Bela Vista - acho que deu.

A juventude faz várias merdas, a velhice te dá um posteriori.Um cagaço danado, mas eu caminho.


Ferro na boneca!

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

a cidade se come-se

a cidade se come-se

pelas bordas
o bem e o mal
passeiam de mãos atadas
em progressivo progresso

a cidade se come-se

e devo fechar o nariz
aí vem mais uma vez ela
um coração que nada me diz
shape desinformado
passo descompassado

a cidade se come-se
o destino transborda
um desfecho milagroso
para poucos
quase nada é uma ameaça

sou passageiro, uma traça


a cidade se come-se

meu coração aflito
nosso corpo moído
cada passo em falso
derruba a tentativa
de um mundo melhor

a cidade se come-se

eu quase entendo a rede
tecendo trilhos
escuto o coro grego
movendo moinhos

a cidade se come-se
e o mundo me abraça

eu procurei

"quando surgiu-nos diante uma montanha,
pela distância, escura , e alta tanto
que nunca eu conhecera outra tamanha"


Canto XXVI do Inferno. 133.

Dante está no oitavo círculo, oitava vala. A dos maus conselheiros. Encontra Ulisses, pede que ele revele as condições que morreu.


"considerate la vostra semenza
fatti non foste a viver come bruti
ma per seguir virtute e canoncenza"


Ele ensina um salvo a falar italiano, através do Dante.


Eu cheguei aqui através do - É isto um homem? do Primo Levi.

O canto de Ulisses.


Como você chegou aqui?