quarta-feira, 10 de setembro de 2025

fim dos tempos




não tem essa:
primavera!
essa marca já era.
inverno, verão
outono
tempo de poesia
de estio, folhas caindo
ah! o fim do calendário
o esgotamento de uma era



mágoa
mágoa
mágoa
mágoa
mágoa
mágoa
mágoa
água 


tensão
tensão
tensão
tensão
tensão
tensão
tensão
tesão

gente




borboletas no estomago
pássaros nos pés
minhoca na cabeça
macaquinhos no sótão
olhos de lince
ouvidos de ratazana
boca de lobo
cabeça dinossauro
coração de leão
gente é feito disso

volta




eu vou pra cá e vou pra lá
e não sei onde chegar
de certa forma nunca saí do mesmo lugar

conversa




uma conversa com desvios
um bate-papo com atritos
é isto o que eu digo
e você ouve aquilo.

o que houve?
o que você ouve?
um agá na pista
uma trave na vista.

conversa sem destino



domingo, 10 de agosto de 2025

um homem morto num banco na 13 de maio




- Ele está duro.

- Que filhadaputa! Como vamos tirá-lo daí?

-Tem que chamar a polícia.

 

Os dois conversam enquanto dividem um cigarro. Os cigarros ficaram mais fedidos, vagabundos; é o que todos dizem. É a química, são paraguaios, falsos.

-As madrugadas são mais frias porque... ora são os fenômenos físicos, ou químicos?

-Elas são mais frias porque a Terra perde calor para a atmosfera.

-Sim, mas é um fenômeno químico ou físico?

-Pergunta quanto tempo um corpo demora para ficar duro.

 

O homem e seus cães se aproximam, ou antes, os cães vêm antes, correndo; ele vem atrás assobiando, e falando aos cães: Ê, Ô, me espera que vou!

 

-Ele está morto?!

-Sim, durinho.

-Foi uma madrugada fria. bem que a mulher falou: vai ser a madrugada mais fria do ano! Tanto lugar para morrer e ele vem morrer aqui!

-Pois é , eu pensei o mesmo: por que ele não vai morrer na putaqueopariu?

 

Os cães seguem correndo, ele segue atrás, quase gritando:

 

 - Ê, Ô, me espera que vou!

 

- Quantas palavras um cão entende? pergunta aí.

 

Outro cigarro dividido. Encostam-se na parede, lado a lado fumam, conversam diante do banco, do corpo endurecido no banco.

 

- Ele dormia aqui faz tempo.

- Uns dois meses.

- Talvez mais.

- Cem dias.

- Cem dias dormindo nesse banco duro.

- Agora ele está mais duro que o banco.

- Sim acho que ele era duro desde sempre.

- Não entendi.

- Duro, pobre.

- Ah.

 

O homem dos pães fecha a porta do carro com força. a necessidade dele fazer isso é nenhuma. Bate a porta com força, segura forte o pacote dos pães, conversa com os outros de forma ríspida, pesadamente:

- Morreu?

- Mortinho.

- Eles tomam cachaça e morrem. nem sabem que estão mortos, pode procurar aí, hipotermia.

- Oi?

- Hipotermia. Esse idiota não tinha outro lugar para morrer?! Ele deve estar pesado.

 

Um corpo morto não pesa mais que um corpo vivo. Um filme antigo, de relativo sucesso " 17 gramas" serviu de veículo da ideia que um corpo "perderia" 17 gramas ao morrer. Nada pode corroborar com essa visão. Um corpo, aliás, pode parecer até mais pesado, se estiver morto. O "rigor mortis", expressão em latim que significa aproximadamente " rigidez cadavérica" , e que tem uma explicação química, ou seja, de transformações que não são aparentes. As transformações químicas que ocorrem, esse enrijecimento muscular, o "duro" , deve-se, entre outros fatores, ao acúmulo de ácido lático, atletas de fim de semana também tem esse problema. Em síntese a produção desse ácido tem a ver com o metabolismo da glicose, uma demanda maior por energia sem a necessidade de oxigênio. Ora, a transformação física também ocorre: o corpo que está ali, ou antes, estava, ou quer dizer ainda está, é que agora está duro, quer dizer: aquele corpo que estava ali antes, mole, fofo, um bolo de carne, agora é duro como um pedaço de pau, ou uma pedra. Um corpo morto está lá: imóvel, passivo, inerte. O que não é a mesma coisa. As diferenças sutis entre a falta de movimento ou reação são sutis, pouca coisa diferentes, mas merecem destaque, tanto para a semântica quanto para o juridiquês, essa linguagem , um jargão, utilizada pelos rábulas, ou mais apropriadamente, aqui a sintaxe, aqueles que pretendem ao elaborar suas petições, sentenças, ou elaborar resoluções, normativas ou projetos de lei, quando não enrolar , mas na maioria das vezes cansar o leitor, extenuá-lo , confundi-lo, despertar sua ira, ou simplesmente confundi-lo, adiar o fim, gerar suspense ou coisa afins.

 

 A moça da padaria vai passar, uma chance de falar com ela.

 

- Veja, ele está morto.

 

Ela passa. Mais uma vez vai passar sem falar com eles.

 

Trocam de lugar, de ponto de vista. Escoram-se no carro vermelho. Dividem outro cigarro.

 

- Hoje o dia vai demorar mais a amanhecer.

- Sim um fenômeno físico e químico.