sábado, 30 de junho de 2012

acordei



acordo com o estrondo
de um acôrdo
eleitoreiro e traiçoeiro

o meu desacordo é geral
esse foi o definitivo acorde:
 - não aceito

no meu canto
continuo na torcida pelo encanto
o fim do pesadelo

vou



a palavra cigana
na minha língua
engana

o vento marrano
no meu ouvido
assobia

uma conversa amiga
me tira do caminho

entre eles e eu
o destino

sobre trabalho e outras maneiras de passar o tempo





Entendo perfeitamente que, sem alternativa e na ânsia da busca do respeito próprio, uma pessoa dedique-se com afinco a um trabalho imbecil e desprovido de sentido.

Entendo também que uma pessoa, fazendo esse trabalho idiota e sem reconhecimento da sociedade - aliás perfeitamente compreensível pois a maioria dos trabalhos não tem importância nenhuma - esforce-se no sentido de fazer um trabalho correto e assim, espera-se , seja promovido e, tornando-se capataz, deixará de fazer o trabalho idiota e passará a esmerar-se ao máximo para tirar o couro daqueles que executam o trabalho imbecil e sem sentido, para que ele mesmo não retorne a um posto onde alguém estará se esmerando ao máximo em tirar o máximo de produtividade dele, para que etc., etc.

outra coisa que compreendo: temos que trabalhar em alguma coisa. não sabemos frequentemente no que podemos trabalhar que  possa nos dar algum prazer e mais, não sabemos nada a respeito de nós mesmos. somos levados de roldão para a máquina de moer carne, de acabar com as almas que se chama sociedade capitalista.


Hoje, cinquenta anos no lombo, madrugadas aflitas, 9 de julho, bixiga e barra funda, 72 praias de Ubatuba em 1984, uma bota que tem 18 anos e foi de porto alegre a bahia, permaneço o mesmo, mudando. E gosto mesmo de  devaneio, vagabundagem e malandragem.


Isso: poesia + acaso + lirismo + noites em claro + viver a vida como um artista + loucura + delírios, aqui estou. 

Se não no trabalho, onde então?

O meu respeito próprio é imenso e baseado no apoio familiar, no respeito por minhas profecias e nunca na aparência da atividade que eu esteja fazendo.

O meu dedo indicador de nascença é torto, nunca vou indicar nada a ninguém 

O Toda autoridade é ridícula, todo trabalhador é escravo, Roberto Piva 


Não obstante tudo isso, em alguns trabalhos me diverti, obviamente porque não estava trabalhando:

1 - na biblioteca da ESPM  passei tempos agradabilíssimos  explicando, por exemplo: que psicologia escreve-se com p mudo, e indicando livros de althuser, e waste land, e os homens de palha e esquecendo de goebbles e ouvindo os sinos bater cercado de livros que ninguém lia, pois estavam somente preocupado com raimar richers e cobra.

2 - fazendo pesquisa nas ruas passei por tantas situações inusitadas, e conheci tantos lugares - antes de trabalhar em pesquisa o lugar mais longe que eu tinha ido era o Cambuci - e a pesquisa eu devo minha casa, e foi através dela que eu conheci Maia.

3 -  como professor eu pude estudar. E testemunhei também o fim da minha esperança em Revolução, e escutei verdades absolutas, um aluno respondendo  a alguma  minha pergunta:

- E você, o que acha disso?

Resposta:

- Sinceramente? Foda-se.

Mas esses trabalhos, a biblioteca, a pesquisa e a escola, me tomaram muito tempo. Quando tive tempo escrevi 7 livros,que ninguém vai ler, mas aumentaram minha enorme vaidade.

Passar o tempo pra mim é isso, não trabalhar: meu maior prazer sempre foi ver a grama crescer e esforçar-me ,em vão, tentando fazer acabar a chuva; além de escrever, cantar e andar á toa.

A depender de gente como eu jamais teríamos atravessado o grande mar. 

Trabalho é para os fracos, ou quem fica se perguntando quem vai servir à mesa, ou limpar os cinzeiros, ou construir o foguetes. Eu estou preocupado com a Teoria do Caos e em perscrutar as estrelas.

O negócio, que é a negação do ócio, de novo a vadiagem, contradição em andamento, o negócio é o seguinte: na negação do trabalho, a  minha negação do modo de vida que produz pessoas infelizes, gente sem respeito próprio, sem saber do que gosta de fazer, gente que é obrigada a limpar cinzeiros, gente que não gosta de trabalhar, mas tem que trabalhar limpando mesas, gente que quer se tornar capataz.

Liberdade para as borboletas
















sexta-feira, 29 de junho de 2012

sexto sentido





minha falta de tirocínio
meu tatibitate
ausência de tato
desequilíbrio
os sentidos sem sentido
não sei para onde olhar

Uma mesa

Como uma mesa deve ser:
Sólida. Firme. Robusta.
Com quatro pés. De madeira.

Uma mesa larga
onde seis pessoas
enquanto comem
possam gesticular macarronicamente
e os pratos, muitos pratos fumegantes,
estejam dispostos de tal forma
que devamos pedir pra as outras pessoas:
-Mais feijão, por favor!

Uma mesa grande
que quando aberta
vinte pessoas levantem um brinde
e que crianças possam ficar correndo
em torno dela
e ficando embaixo delas
escutem coisas que evidentemente
não deveriam escutar.

Debaixo da mesa
eu poderia desenhar
um homem de barba
o principal de nós
ou a senhora de cabelos claros
que nos ensinou que a vida não é só aqui
ou a doce figura da Dina
colocando uma fita no cabelo da criança de rua
ou a figura gigante do meu avô
ou ainda Madri
que tanto orgulho tem de ser nossa gente.

Poderia escrever:
incompatibilidade de gênios
ou AMOR escrito com nosso sangue.

Mas eu escrevi o que meu pai
gritava nos sacudindo às sextas-feiras
o porquê jamais poderíamos fazer uma maldade:

-Somos Miele.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

leveza da minoria

a maioria
não lê, vê tv

a maioria
oprime e imprime a opressão


a maioria
é estúpida e provoca a estupidez


a maioria
seduz fazendo querer ser parte dela

a maioria engana
e enganando é enganada
 
não há como vencer a maioria
eu efetivamente nunca liguei para ela
 
a questão é refutar a ignorância a violência de qualquer tipo
 
meu coração está de guarda
esperando a hora do ofício
o pulo para as coisas difíceis
o mundo longe do arbítrio
 

presença



o céu nublado
                      o sol está lá
as folhas no chão
                      a árvore está lá
o banco vazio
                      você está lá