sábado, 19 de novembro de 2011

Encontro com famosos # 2 - Elke Maravilha.



Adoro a Elke Maravilha.

A Elke é russa e conhece o Brasil, sabe? A Elke nasceu em Leningrado em 1945, foi gerada na  2ª Guerra e veio pro Brasil dar muito amor.

Ela entendeu melhor o Brasil  e explicou. A alegria é importante!

Aqui tem cor, tem flor, tem criança. Tem muita coisa bonita aqui.

Estava eu num desses lugares da Bela Vista... um bar "Os bons companheiros", " Sindicato de ladrões", "O poderoso chefão", bem típico. Lugar escuro. Nos fundos um reservado com mesa de bilhar, de carteado, um desses lugares de onde os velhos saem com pacotes de dinheiro.

Estava junto com meu grande amigo, filho do presidente do clube mais importante do bairro. Os velhos falavam:

- Dá um guaraná pra eles, oh! Bastião. E a gente tomava sem falar palavra.

O Jacomino dizia que a gente ia lá aprender.

Entra a Elke Maravilha no bar, vestida de Elke Maravilha, falando como Elke Maravilha, um banho de luz, de cor, de vida, de amor, extroversão; a Elke é um bando de criança junto, uma trupe de palhaços. Entrou gargalhando.

Os velhos todos quietos.

Elke pede uma "pinguinha" e diz, de forma pausada, firme, direta, com os olhos escancarados e as pernas abertas:

- Eu gosto quando a tensão se transforma em TESÃO".

E eu tive que continuar quieto.

Essa Bela Vista... são coisas assim da Bela Vista que eu definitivamente não gosto.

‎"...amou-a com esse triste amor que inspiram as pessoas que não nos amam, os fracassos, as doenças, as manias; essencialmente, não é mentira dizer que nunca se afastou dela." Borges dizendo alguma coisa do Hawthorne, em Outras Inquisições. Eu amo a Bela Vista assim, um triste amor.

E Borges está mudando minha vida, mais uma vez um livro mudando a minha vida...

Ora, o Lawrence, conforme ele escreveu no comentário, superou em muito o que eu havia escrito. ele falou desse encontro fortuito, possível, só possível no nosso Bixiga.(Aqui o amor pela Bela Vista deixa de ser triste)
O comentário dele, para mim é um diálogo, um ínicio de.E assim me possibilita um texto dentro do outro texto. Aquilo que foi acrescentado, depois do comentário do Lawrence, surge  em itálico.
Tudo que eu havia pensado, ou tinha sugerido, eu quero tentar  deixar registrado. Eu não havia ido  a fundo em escrever a Bela Vista que eu quero, que é a minha Bela Vista favorita, em oposição aquela conservadora, que segura, que não deixa ir a deriva. E não havia explicado o  porquê do Quixote, que vai a deriva e delira, sonha.

- Bela Vista são muitas, jogo de espelhos partidos misturando um lugar. Se eu fecho os olhos eu tenho outra Bela Vista. Aliás Bela Vista não há. Eu tenho um registro fotográfico com as placas indicando Bela Vista e a seta á direita, á esquerda. Onde estará a Bela Vista?

 Há o Bixiga dos velhos,dos primeiros habitantes do lugar; dos negros da saracura, dos nordestinos;  tem o Bixiga da Treze ,uma geração dos anos 70/ 80, muita coisa pra lembrar.

Um lugar que tem dois nomes, já é uma bagunça, uma  coisa a mais a decodificar.

Entre a Paulista e o Centro, a Bela Vista é o lugar.

A minha Bela Vista também são muitas.Eu gosto da Bela Vista de todos, uma possibilidade de encontro, misturar gente.Foi nessa bela Bela Vista que encontrei o Lawrence.

Lembrando da Elke e pensando nas várias  Bela Vista, que não há, encontrei o Lawrence Castello Branco, numa quase madrugada  de segunda feira na Bela Vista. O Lawrence é um Dom Quixote.

Eu posso dizer, que o Quixote é realista. Com o auxílio do Borges:" Realista face a algum grande épico, a trajetória do Odisseu."

(Aqui outro toque do Lawrence, o cotidiano de gente comum, nada épico encontrar um amigo e trocar algumas ideias, mas isso de repente dá uma força pra ir além.)

"O que é o Quixote? O que procura o Quixote?

Opor ao prosaico um mundo imaginário. Você tem essa paisagem triste, algumas figuras, uma dificuldade de se relacionar, mas você inventa, encontra nesse lugar o seu lugar. E sonha em fazer um lugar."

O mundo imaginário, o mundo das ideias, ideais, mudar o mundo. Lawrence Castelo Branco, andando na madrugada, vivendo o sonho.

E a gente conversou e se abraçou, e falamos da Bela Vista , amar a Bela Vista, uma idéia de Bixiga, desse amor para com a Bela Vista, e não ser amado pela Bela Vista. Amor Triste, amor inventado, amor fudido, amor.

De volta ao amor, de volta Elke, que inventou um brasil melhor, maravilha, Amor.



Um pouco mais sobre a Bela Vista aqui: http://mauriciomiele.blogspot.com/2011/05/uma-bela-vista-que-nao-sai-da-minha.html

Um comentário:

  1. Naquele passeio pela Bela Vista, onde os pés instintivamente me conduziam rua acima, acabei indo de encontro ao que procurava sem saber: um breve e caloroso encontro que restituiu meu fôlego para seguir adiante combatendo moinhos de vento até chegar em casa.

    Não sei se o observador sóbrio é mais fiel aos fatos, ou se aquele turvado em álcool escreve por linhas tortas, mas tenho certeza que os dois devem(os) beber da fabulação para viver – e escrever - a crônica do cotidiano


    Um abraço!

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